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REALIDADE HÍDRICA BRASILEIRA, texto extraído do livro OURO AZUL.

 O Brasil possui uma das maiores redes hidrográficas do mundo, além de extensas reservas de águas subterrâneas. A gigantesca bacia Amazônica, com mais de sete milhões de quilômetros quadrados - dos quais 3,9 milhões passam pelo território brasileiro - é a maior do planeta. Seus rios são responsáveis por 70% dos recursos hídricos do país. As águas no subsolo do Brasil, que formam os aqüíferos têm reservas estimadas em 112 bilhões de metros cúbicos. O Aqüífero Guarani, principal reserva subterrânea de água doce da América do Sul, ocupa uma área que equivale aos territórios da Espanha, França e Inglaterra juntos - cerca de 1,2 milhão de quilômetros quadrados de extensão. Passa pela Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, sendo que dois terços de suas águas se distribuem nos subsolos de oito estados brasileiros. Estima-se que o aqüífero possa fornecer até 43 bilhões de metros cúbicos de água por ano, suficientes para abastecer uma população de 500 milhões de habitantes. Diante deste cenário de números, é possível imaginar que o acesso à água não seja um problema para os brasileiros. Entretanto, esta é uma conclusão precipitada. Antes disso, é preciso levar em conta uma série de outros fatores geográficos, políticos e sociais. 

É importante lembrar que a riqueza hídrica do Brasil não se distribui de maneira uniforme em todo seu território de mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados. A Amazônia, que concentra 70% da água do país, abriga cerca de 7% da população brasileira. Enquanto isso, a região Sudeste, com 42% da população, possui apenas 6% das reservas - segundo dados da Universidade de São Paulo (USP). A distribuição desigual, além de retratar uma realidade de contrastes onde parecem existir vários países dentro de um só Brasil, reflete-se também na cultura dos povos. Enquanto em regiões como o semi-árido nordestino, as comunidades levam uma rotina de longas caminhadas diárias em busca de água e desenvolvem técnicas para armazenar águas das chuvas, em outros locais, a água é utilizada para lavar calçadas das vias públicas ou encher piscinas em condomínios de luxo. As praias particulares e projetos privados de irrigação, patrocinados com dinheiro público, quase sempre impedem cidadãos vizinhos do seu acesso. De um lado, a abundância e o fácil acesso são sinônimos de desperdício e ganância, e, de outro, a escassez tem relação direta com a doença e a pobreza.

Realidade cultural ou burrice intelectual? O povo brasileiro tem uma atitude nada humanitária quando observamos o uso e o bem valor dos recursos naturais. Não basta ter uma piscina cheia de água para nadar e se vangloriar, enquanto a maior parte do nosso povo tem uma poça suja e barrenta para saciar sua sede. Lembremo-nos que tudo neste planeta é cíclico, ou em linguagem bem popular, O Mundo dá voltas!

Maude Barlow & Tony Clarke, 2003. Ouro Azul. Ed. M. Books do Brasil Editora Ltda. São Paulo, 1ª edição, 331 p..

 

 

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